quinta-feira, 27 de novembro de 2025

2mg

   Já era quase verão quando eu perambulava pelo bairro à procura de facilitadores de alma, não demorei muito para encontrar, os dois comerciantes tinham, pelo que eu me lembro, uma aparência inquieta, o primeiro era calvo, gordo, tinha os olhos cansados e sua voz era a de bater ponto; já o segundo era forte, tinha o porte pequeno, um topete esquisito, um par de tatuagens, uma voz tranquila sem muita preocupação, quando entrei no estabelecimento o segundo homem estava nas profundezas em busca de algo que eu lhe havia pedido, Disponível, ele me respondeu, saí com pressa de quem tem medo de ser pego, joguei todo o peso em um lixo qualquer, uma lixeira amassada quase inútil mas ainda servia seu objetivo de ser lixo.

Facilitei minha dor em menos de uma hora após minha chegada, me senti insólito depois de duas horas, meu progenitor, horas antes de tudo me ligou e me disse que gostaria de me ver naquele dia em especifico -lhe disse que era obvio-, venha sim; chegou quando o sol já estava escondido, passaram-se exatos treze minutos e ele já se fora assim como veio. Caí novamente na armadilha, não tropecei, caí com esplendor e muita consciência do que eu estava fazendo, eu caí no buraco com charme! -afirmei ao diabo- ele ria de bom grado, no fundo eu sabia, mas do que importa se eu sei ou não sei, ao menos me sentia sem medo. Porém medo à quê? Medo familiar, que me corta sem eu perceber, quando acordo pela manhã e vejo cicatrizes prefiro fumar e beber café velho, do que lembrar que tenho cortes no corpo que nem ao menos me importo, nada tem muita importância nesse sentido, nada me faz voltar aquele momento, mas carrego essa pedra do pé do morro até seu ápice, e de novo e de novo, continuo, sem pensar muito para não pensar demais e minha cabeça começar a ter duvidas. 

Lembrei-me de um antigo primo de terras longínquas, terra que ainda me lembro coisa ou outra, um cheiro de suco industrializado misturado com amaciante de roupas completamente alienígena aos cheiros do pedaço de terra que eu habito agora. Tivemos uma breve discussão, eu lhe dizia que fizesse o contrario do que eu estava fazendo, que aquilo que ele tanto buscava estava em si mesmo mas não no xarope. Hipócrita, falei em tom alto à mim mesmo depois que cortamos contato, me senti um exemplo inadequado. Masturbei minha mentira até a ultima gota, até não sair mais nada, pouco importava se sangrava, pouco importava se me machucava, pouco importa. Pouco tempo me restava para finalizar tudo, terminei tudo em questão de duas semanas, arranjei um laboro e fui feliz, finalmente, já não dependia de ninguém para mentir, já que, eu era agora a minha própria aveludada mentira.

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