sábado, 14 de março de 2026

De você para quem

Da ultima vez que eu vi, ja não sei quando foi e também não sei onde era, talvez fosse num bairro que já não me lembro o caminho; são tantos os bairros em quais já me perdi, do que adianta tentar lembrar daquilo que já não é. Queria lembrar daquilo tudo, mas o sonho confuso é tudo que tenho e ainda assim só satisfaz quando durmo, o mais engraçado é que fui eu que fiz isso tudo.

Parece que esqueci como sentir ou como chegar naquele lugar que faz sentir, não peço ajuda a ninguém porque não conheço ninguém, não reconheço o espelho, visto as mesmas roupas, aquela camisa que me deram e fico me indagando questões inúteis que no fim só me fazem sentir menos e menos a cada semana que passa e eu nem percebo. 

Tomo café não porque preciso mas sim porque a rotina clama que é preciso se não minhas paredes gástricas se dissolvem e eu morro, mas que diferença faz se eu vivo na hiper-realidade da minha cabeça que se mata e no fim não lembra de mais nada. 

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

2mg

   Já era quase verão quando eu perambulava pelo bairro à procura de facilitadores de alma, não demorei muito para encontrar, os dois comerciantes tinham, pelo que eu me lembro, uma aparência inquieta, o primeiro era calvo, gordo, tinha os olhos cansados e sua voz era a de bater ponto; já o segundo era forte, tinha o porte pequeno, um topete esquisito, um par de tatuagens, uma voz tranquila sem muita preocupação, quando entrei no estabelecimento o segundo homem estava nas profundezas em busca de algo que eu lhe havia pedido, Disponível, ele me respondeu, saí com pressa de quem tem medo de ser pego, joguei todo o peso em um lixo qualquer, uma lixeira amassada quase inútil mas ainda servia seu objetivo de ser lixo.

Facilitei minha dor em menos de uma hora após minha chegada, me senti insólito depois de duas horas, meu progenitor, horas antes de tudo me ligou e me disse que gostaria de me ver naquele dia em especifico -lhe disse que era obvio-, venha sim; chegou quando o sol já estava escondido, passaram-se exatos treze minutos e ele já se fora assim como veio. Caí novamente na armadilha, não tropecei, caí com esplendor e muita consciência do que eu estava fazendo, eu caí no buraco com charme! -afirmei ao diabo- ele ria de bom grado, no fundo eu sabia, mas do que importa se eu sei ou não sei, ao menos me sentia sem medo. Porém medo à quê? Medo familiar, que me corta sem eu perceber, quando acordo pela manhã e vejo cicatrizes prefiro fumar e beber café velho, do que lembrar que tenho cortes no corpo que nem ao menos me importo, nada tem muita importância nesse sentido, nada me faz voltar aquele momento, mas carrego essa pedra do pé do morro até seu ápice, e de novo e de novo, continuo, sem pensar muito para não pensar demais e minha cabeça começar a ter duvidas. 

Lembrei-me de um antigo primo de terras longínquas, terra que ainda me lembro coisa ou outra, um cheiro de suco industrializado misturado com amaciante de roupas completamente alienígena aos cheiros do pedaço de terra que eu habito agora. Tivemos uma breve discussão, eu lhe dizia que fizesse o contrario do que eu estava fazendo, que aquilo que ele tanto buscava estava em si mesmo mas não no xarope. Hipócrita, falei em tom alto à mim mesmo depois que cortamos contato, me senti um exemplo inadequado. Masturbei minha mentira até a ultima gota, até não sair mais nada, pouco importava se sangrava, pouco importava se me machucava, pouco importa. Pouco tempo me restava para finalizar tudo, terminei tudo em questão de duas semanas, arranjei um laboro e fui feliz, finalmente, já não dependia de ninguém para mentir, já que, eu era agora a minha própria aveludada mentira.

sábado, 8 de novembro de 2025

 Seus 

Seus segredos guardados dentro do relógio, o relógio que as vezes é cruel e vez ou outra é bom. Tudo sobre esse relógio misterioso me indaga, como ele consegue guardar segredos sendo um mero relógio? 

Por que me preocupo tanto com este relógio, me pergunto de onde vem este fogo, será que é água e minha mente crê ser fogo; são tantas as coisas, as coisas que penso sobre relógios. Ele diz números, eu não falo essa língua, falo com a língua não com ponteiros mentirosos.

Ouvi dizer que é preciso trabalhar, ouvi dizer por ai que é necessário chegar com antecedência, ouvi o ultimo suspiro e vi com os olhos o ultimo desencontro.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Sol

 M. encontrou oque tanto procurava numa segunda-feira dourada em pleno dia de Luna. Almejava poder conquistar isso que tanto precisava, passou dias de aflição no simples ato do pensar, até que chegou como desejo realizado. Na noite ela frequentava ambientes com exus e pretos velhos e se admirava em vê-los andando pra lá e pra cá com certo proposito, a luz da lua cheia fazia sombra sobre as cabeças; o dinheiro estava no chão mas ninguém se atrevia a pega-lo nem mesmo os moradores daquele lugar assombrado. 

Chegou como se fosse obvio, K. era seguro de si e andava com claridade em cada passo que dava, acenou, virou a esquina e foi direto pedir um copo de água da torneira em um bar fétido cheio de pessoas alegres e vivendo o presente com perseverança, ja que para eles o dia começava na segunda; K. esperou por um bocado de tempo, não sabia com exatidão o tempo valioso que estava perdendo pois seu relógio acabara de ser perdido e não lhe restou nem memoria do ocorrido, o conceito de tempo para ele foi-se perdendo a cada pessoa que entrava no bar, os fregueses que entravam todos olhavam no fundo de seus olhos sem gesticular uma palavra sequer. M. entrou, finalmente à procura daquilo que precisava: K. e entidades; ele viu-a, porém, M. não retrucou o gesto e foi diretamente ao encontro de mais importância.

-Você realmente sabe todos os segredos obscuros que eu desconheço, é verdade. -afirmou M. com grande titularidade à entidade.

-Eu desconheço as palavras, eu estranho e repudio qualquer palavra que se direcione à mim; lhe ofereço dor e miséria se queres.

-Não foi palavras oque lhe disse, foi algo além disso, eu gostaria de entender a historia da historia, de saber o saber.

-Tola e inútil. -respondeu a entidade de maneira sutil-

K. olhava a situação rindo pela máscara da cara, por dentro sentia sede e uma vontade imensa de interferir, mas não o fez por medo. Sua água todavia não chegara, para ele haviam se passados dias desde que entrara no bar à procura de água da pia, ele não entendia o porque de toda a espera por um misero copo d'gua; a angustia começava a tomar o sangue de seu coração fraco quando M. chegou com o olhar em pedra e um gingado inesquecível, K. estava lisonjeado de ser uma opção no cardápio de M.

-Você trabalha com o que afinal? -perguntou M. como repórter de noticia falsa-

-Sou gerente de condenados

-Que maçante...

-Nem um pouco, isso faz de mim alguém importante, quando meu chefe morrer vou ser chefe dos condenados! -afirmou K. se auto bajulando-

M. virou sua cabeça para a esquerda e se entregou a um quadro completamente preto, intrigando-se o por quê, porém logo entendeu e ficou calada a olhar ignorando completamente a presença de K. 

-Sirvo muito bem para matar o tempo, as vezes me sinto como uma pedra de crack que ainda não foi completamente fumada. -disse K. porquanto M. ainda mantivera o silencio inquieto-

As palavras viraram apenas ruído branco, as pessoas já não eram pessoas, a água que K. tanto procurava nunca chegou, M. gozou de tudo já que não estava presa a nada, mas ainda assim nunca satisfeita com o gozo. Os dois pensaram ao mesmo tempo que não precisavam daquilo, mesmo assim os pensamentos não viraram palavras, nada foi concretizado de fato como também nada foi nem ao menos construído. M. foi embora e K. se manteve na sede de um deserto à noite, o dia chegou com sua nova doçura amarga sem relógio, ainda assim com pressa tremenda de outro domingo de sol.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

 o elefante do bairro do Glicério foi acompanhando os choros e prantos das moças que caminhavam, subindo e descendo aquelas ruas antigas cheias de relíquias enterradas sob o concreto cruel do meio-dia. o grande animal ja fez presença em vários outros carnavais de velório naquela mesma rua sem nome, com aquela tromba e aqueles dentes pontiagudos que fazia o espanto dos transeuntes que davam passos medrosos ao estar no mesmo ambiente que aquela besta enorme. ninguém sabe ao certo como aquele animal foi parar no bairro, alguns dizem era presente sagrado trazido por Hermes; o resto apenas aceitava-o como elefante do bairro. ele não tinha nome nem idade certa, a única certeza que tinham era que o elefante sempre estava para consolar em dias sombrios e alegres, o elefante fumava e bebia muito sempre que recebia oferendas de charuto e vinho, adorava também roubar grandes comércios e deixar todos espantados vendo-o beber todo o estoque de vinho e outros alcoólicos que estavam a sua disposição. 

foi morte o que causou tudo, a podridão de seu cadáver fedeu por mais de mês no Glicério e as moscas imundas... nenhuma autoridade fez nada à respeito do cadáver, quando virou osso só restou sangue seco e as moscas sugando até o último resquício de alma que ainda restava na rua sem nome em frente a casa 62. ninguém lamentou, não ouve velório, apenas tiveram que suportar o odor por 2 meses, passou bem rápido; hoje em dia quando passo pela mesma rua em que ele morreu vejo vários bacanas com seus carros rápidos, diversos prédios modernos, luzes led por toda parte, crianças fumando cigarros achados no chão, comércios dos quais os donos são estrangeiros, puteiros da máfia coreana; não sei ao certo se é preciso chorar a morte do elefante, mas todas as vezes que vou ao trabalho de manhã e passo pela mesma rua sem nome em frente à casa 62, paro o passo e fico por umas meia hora lembrando de como poderia ter sido diferente, fumo, apresso o passo nostálgico pois não posso chegar atrasado já que o gerente novo é perverso e tem prazer em descontar metade do salario degradante que eu aceito por puro medo de não conseguir comer feijão e arroz.

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

 Senhor Morte diz que é Verdade.

É verdade, tudo se acaba e tudo se vive para Morrer, animais, plantas, frutas, festas e planos também. Se ele disse que é Verdade eu acredito em todas as suas palavras mórbidas, todo esse vento no ar me deixa feito peixe fora da água, sufocado no frio imprevisível que é morar em Capital de Estado, vento que leva, vento que traz. Todas aquelas folhas secas no meu quintal, todo o caminho percorrido por elas até chegarem ao meu encontro, para que eu finalmente as varra feito o grande nada mortal.

FATAL, foi oque ele disse após sair do quarto ou vagão escuro em qual estávamos nos abrigando do frio cruel da noite, me deixou com grande dor no peito quando ouvi o fechar da porta, aquele estralo medonho pareceu tiro à queima roupa, não qualquer roupa, roupa branca que mancha com sangue seco, que não lava nunca não importa o esforço colocado. Saí dali quase como que um condenado à espera da morte que não chega nunca, fui ao encontro da rua asquerosa que me rodeava, avistei luzes nos postes e senti um calor demoníaco pairando no ar e na mesma hora fui em busca dos prazeres que a carne tem para me oferecer. Um lugar sem nenhum amparo, sem amizade, simplesmente terror em plena noite, a moeda sendo claramente ouvida de bolso em bolso, parentes importantes não estavam presentes, porém, seus herdeiros estavam gritando feito loucos de manicômio pra lá e pra cá, com semelhança tremenda as dos cachorros do centro, cada qual no seu bando designado, mecanicamente introduzindo diferentes tipos de substancias em seus corpos frágeis e delgados. Meticulosamente ignorando suas próprias respirações, escolhendo alternativas mais sanas como por exemplo pílulas prescritas por dentistas ou farmacêuticas de confiança. Pouco caso fazem de mim quando chego ao local, apenas mais uma formiga que chega no meio de centenas, sedentas por algo, algo que não se encontra dentro de suas casas, algo podre, no ápice da sua decadência predestinada, elas esperam que este lugar as preencha, parei e ri enquanto chovia e todas elas corriam feito cavalos do Apocalipse.

21:01 26/09/2025 

sábado, 20 de setembro de 2025

Preso

 Preso naquele perfume, no semblante sem muita expressão quando sai da estação, e verifiquei que havia algo ali, algo novo, nunca jamais visto pelo homem. Algo que cria, que prende, alguns até alucinam so pelo olhar fascinante daquilo, não sei como descrever exatamente em palavras, mas sei o sentimento de quando lembro do aroma; uma noite de chuva em cama de solteiro bem pequena esmagando dois corpos, que naquele momento estavam ali somente como corpos e nada mais, suas mentes, ja haviam ido-se fazia algum tempo. As vezes me volta toda essa memória do cheiro do perfume, perfume do qual não sei absolutamente nada sobre, não sei seu nome, seus diferentes aromas e nem ao menos do que é feito, ja que não existe a necessidade de sabe-lo, a única opção é senti-lo.

Sentir me faz sentir preso, engaiolado, sem saber exatamente o que fazer com isso, sem nenhuma escapatória a não ser sentir, é algo que me irrita, entristece, faz-me sorrir, delirar, amar; gostaria somente de chorar por chorar e rir por rir, sem um sentimento atrapalhando estes simples atos. Mas realmente não haverá mudança no quesito sentimento, apenas no modo de se lidar com eles, parece tão vago isso que acabo de ler, algo que não se põe rótulo, uma sinapse se comunicando com outra faz um efeito gigantesco por menores que sejam essas ditas cujas sinapses, elas fazem grandes efeitos. Me fazem entrar em bares que jamais ouvi falar com pessoas estranhas, sem luz, apenas uma luz avermelhada bem perturbadora, que logo vejo e digo que quero sair, mas não posso pois o bar que acabo de entrar é a minha própria Mentira, ou mente, qualquer que seja o nome atribuído a ela pouco importa, o que realmente importa nesse bar sujo é que existem lugares que eu nunca entrei, por preguiça, por medo ou talvez pela simples ignorância de não querer saber, a mais linda estupidez de todas elas. Você é tão linda, tão sensual, tão casual, simples e complexa, dois mundos diferentes em um só, que asco que pensar nisso me traz, mas ao mesmo tempo é tão gostoso é tão natural, me sinto uma árvore, parte de algo maior que eu, um impulso que vai além de mim mesmo e das minhas vontades idiotas, faz-me percorrer distancias enormes para sentir esse algo. 

Ainda assim o colar com qual carrego minhas chaves de casa não sai de meu pescoço, ja tentei de todo jeito maneira retira-lo, ainda sem êxito, me sinto preso? Me sinto só, somente comigo mesmo, sem outra distração ou pessoa para com qual aniquilar toda essa ânsia, esse tédio patético, porém lindo ainda assim. As vezes me vem a cabeça, eu poderia capturar, assim como o Capturador de Odores Tabaco captura o odor do tabaco deixando no ar um odor de perfume de homem de meia idade que não sabe o que fazer com sua vida, poderia capturar aquele mesmo perfume e deixa-lo totalmente diferente, ainda não sei como fazer e nem sei se quero, ainda assim é um pequeno devaneio que vem vez ou outra a meu encontro. Eu poderia roubar todas as flores da esquina, poderia, porém não quero acabar com a árvore por isso pego apenas um punhado de flores, para que novas possam vir e eu vá lá e as colha. Eu me sinto um rebanho e ao mesmo tempo o pastor, mas quem é o pastor do pastor? Ainda não encontrei resposta e creio também que nem ao menos haja resposta a essa pergunta previsível demais para ser respondida, o ponto é: Estou vivo ainda e amanhã é um novo dia disso tenho certeza mais que absoluta!

23:44 20/09/2025

De você para quem

Da ultima vez que eu vi, ja não sei quando foi e também não sei onde era, talvez fosse num bairro que já não me lembro o caminho; são tantos...