acordei fui limpar as fezes animalescas do meu gato e cachorra respectivamente, o cabo da vassoura, quebrado, entrou na posição perfeita para rasgar meu indicador esquerdo de uma maneira que eu nunca antes pensei que fosse possível de se acontecer. Gritei e esperneei feito criança que come pimenta;
-Cadê a mamãe?! Cadê a mamãe?!
-No quarto, por que?
-Me cortei muito chame-a!
Comecei a limpar as gotas de sangue do chão na frente dela como se fosse meu caminho de vida, quase como se aquilo fosse meu único propósito como filho.
-Pare!
Ela me disse, continuei da mesma maneira robótica com qual meu pai passava pano no chão, soltando xingamentos e grunhidos estranhos ao ar.
Não sei bem ao certo mas me veio a cabeça certos devaneios EM RELAÇÃO a todos os meus relacionamentos com mulheres, comecei a enxergar a própria Oroboros, saindo de um e indo quase q instantaneamente para o outro, sem tempo de espera, sem meditação, apenas uma troca automática. Robótica, um aviso divino, provavelmente lei da ação e reação. Me sinto um cão buscando pelo osso perfeito, meu dono, que é um dono extremamente generoso comigo me lança pedaços de coxa de frango quase que inteiras e eu as devoro quase que no instante, por medo de ele parar de me atirar mais pedaços. Um cão deveras carente, fato, um cão que somente quer mais e mais carne, que tem muito medo do sereno da madrugada ja que a minha tenda esta quebrada e a qualquer momento posso me tremer de frio sozinho, chorando e me lamentando por não haver comido aquela coxa de frango mais devagar ou talvez ter apreciado mais o sabor.
Mais rapidamente desperto do sonho inquieto de cão e vejo que sou humano em carne, com Deveres e Dogmas a serem seguidos com rigidez absurda, que eu mesmo coloco em cima de mim, com vícios que nem ao menos são meus, mas passados meticulosamente de geração em geração quase como que um ritual bizarro e medonho de sociedade secreta. Quando olho as paisagens, o céu, o sol, a lua, e digo a minha garota que eu poderia dar tudo isso e mais, minto, não para ela mas para mim mesmo, uma sociedade que é baseada no romantismo no amor ciumento, de possuir um ao outro até que a outra pessoa ou se mate ou vá correndo e nunca mais volte aos meus braços; algumas dessas garotas me dizem:
-Você é cruel.
Eu fico sem resposta, sei ser cruel, sei ser romântico, sei ser oque elas querem que seja, sou quase que uma fabrica de máscaras, creio eu que somos todos assim ate certo ponto, pois é algo imposto pela nossa sociedade, é necessário matar a sociedade, do mesmo jeito que é preciso matar a ideia de mãe ou pai, essas pequenas prisões que nos mesmos criamos para nos, prisões quentinhas e confortáveis das quais nunca queremos sair, ja que, sair delas nos faria opor a tudo que nos foi imposto antes mesmo da nossa concepção de mundo. Sem escapatória, sem saída, sem ninguém a nos dar ouvidos, assim como o cachorro que chora de madrugada, e ninguém ouve, somente pessoas que estão na mesma situação do cão. Acho que ate estas pessoas não conseguem ouvir realmente a agonia do choro canino, talvez pensem que sabem mas na realidade não passa de ficção de suas próprias cabeças.
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