Enquanto a vela derretia no quarto gelado o senhor A.M espreitava por uma fresta que havia em sua porta velha, observava a vida lá fora, os passáros gritando, as máquinas construindo: cada qual com seu silencioso peso nas costas. A.M olhava tudo aquilo com fascinação infantil, como se nunca houvera visto o mundo, e de fato nunca havia saído de seu pequeno castelo velho hacia o mundo que o esperava de braços abertos, pois ele tinha medo, tinha medo que notassem que seus dentes eram podres, que sua pele estava suja fazia anos e tinha esse medo exatamente porque já viu seus exatos medos serem vividos por outra alma, isso lhe trazia uma angústia inmensa que fazia-o trancar-se para nunca ser visto. A verdade era que ninguém realmente se importava se A.M saia ou não, nada iria mudar, as pessoas iriam continuar indo trabalhar, os bebês continuariam nascendo, os velhos continuariam morrendo, no máximo alguem iria lhe reconhecer e iria ficar por isso mesmo. Porém A.M continuava a nutrir seu pensamento mesquinho, ele achava que assim pelo menos alguém teria pena dele e invadiria seu repudiante castelo, nada nunca aconteceu, A.M com o passar dos anos mantinha a crença de que algo aconteceria, nada aconteceu, cada mês que passava jurava e rogava à Deus, porém tudo se mantinha exatamente como estava e a mudança que tanto esperava não caía do céu. E de fato nunca caiu, somente a chuva e a neve, cada dia era exatamente igual o anterior, a unica coisa que mudava era o ponteiro do rélogio que já não fazia mais sentido para ele; nada mais fazia sentido ao senhor A.M, passava a maioria dos seus pobres dias chorando ou com uma raiva descontrolada.
Sem nem ao menos saiu à ver o mundo, se encantou com os lagos e com os rios, mas quando viu o mar ele realmente ficou louco, A.M não entendia como algo tão perfeito estava colocado em um mundo tão imperfeito. A.M não perdeu muito tempo com as águas e foi direto à uma cidade chamada Sé, lá era onde se concentravam a maior parte dos humanos vivos, lá era onde havia trabalho e todas as tecnologias que o ser humano havia criado até aquele momento. Conheceu um grande amigo lá, Sr. R., se conheceram por acidente enquanto A.M estava em busca de ópio, Sr. R. era vendedor de ópio e assim nasceu uma bela amizade, passavam o dia inteiro fumando e sentados em suas respectivas camas de ópio, riam, prozeavam sobre a vida naquela cidade que mais parecia um inferno, mas a cada trago que davam se esqueciam de suas dores solenes dentro da lindíssima casa do Sr. R.. Passaram-se 4 meses desde que A.M conhecera o Sr. R., os dois estavam magros e doentes, a amizade que um dia tiveram estava decadente como seus corpos, A.M precisava de mais e mais ópio para sentir o mesmo gozo como o da primeira vez que fumara, porém, nunca chegava lá, irritado com Sr. R., que já estava cansado de sustentar A.M pois estava lhe causando um prejuízo enorme, se negava a dar-lhe mais; A.M pegou uma faca amolada e afiada e perfurou 33 vezes o corpo delgado do Sr. R., R. não tinha forças para o contra-ataque, então simplesmente deixou-se morrer na mão daquele viciado. A.M fugiu rapidamente da Sé, sem antes roubar todos os pertences e ópio do finado Sr. R., se abrigou em uma cidade vizinha chamada de Alumínio e lá ficou; liquidou "seu" ópio em menos de uma semana dentro de uma lixeira que havia encontrado, quando finalmente ficou sem nada decidiu voltar ao seu castelo e isolar-se novamente, a dor era demasiada para continuar a vagar pelo mundo frio que era aquilo tudo fora de seu castelo.
Lá ele era ninguém, lá ele era o nada e o tudo, lá era onde se sentia verdadeiramente bem, já não se importava se vida continuaria sem ele, pouco caso fazia da vida e da morte, lá era seu lugar.